MISTÉRIO DE UMA APARÊNCIA




Lá vai ele todo em trapos,
Olhar parado, ora agitado;
Passos trôpegos, gestos de dúvida.
Não escolhe rumos;
Não reclama nada.
Se tem pão ele como.
Com seu velho caneco,
Transbordante de água suja,
A sua sede ele mata.
Para... Vacila... Mais alguns passos,
E ali mesmo ele senta,
Vencido pelo cansaço.
Figura estranha, incompreendida.
E o frio? Como ele o vence?
Com pedaços de panos ou velhos jornais.
Sujos ou limpos, pouco lhe importa.
Adormece lentamente.
Já nada mais vê.
Aparentemente, pouco ou nada ele sente.
Nem o lambido sôfrego de um pequeno cão sem dono,
Sobre o seu rosto em abandono. Não sente o alarido irritante
De uma bando de crianças traquinas,
Que tentam perturbar-lhe o sono.
Não sente criaturas maldosas,
Que passam pisando firme,
Virando-lhe o rosto com escárnio,
A negar-lhe o respeito humano.
- Quem será ele?
Um ignorante que já foi sábio?
Um escravo que foi senhor,
Ou servo que já foi rei?
Não será ele um doutor,
Um poeta ou um cientista,
Ou um célebre pintor?
Quanta verdade oculta
Num simples invólucro humano
Que, triste e tranquilamente,
carrega seu fardo, sem lamentos!
Acorda lentamente...
Levanta-se de novo...
Caminha... Caminha...
De repente, seu olhar eleva-se
Para as imensas paragens do infinito.
Momentos de lucidez...
Como lhe brilham os olhos!
Que gotículas claras e transparentes
Caem-lhe mansamente, rolando em contraste
Com o pó do seu rosto sujo e maltratado!
São lágrimas que deslizam!
Ele chora, no silêncio do seu mundo!
Ele pensa nos recônditos de su’alma.
Ele sofre! Ele é gente!
E espera confiante, o momento do resgate final.
Avante, andarilho louco!
Avante! Pois seu dia chegará!
Com os acordes da liberdade
Para a luz do infinito você partirá.
Avante!

Elvarlinda Jardim
Do Livro: Vozes do Meu Sentir (Publicado e esgota a 1ª edição)

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